A Moda NÃO é fútil, por Júlia Groppo

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Foto: www.weheartit.com
Existem diversos discursos enraizados na sociedade. Eles carregam, dependendo do contexto, machismo, racismo, preconceito com os diversos gêneros sexuais, intolerância religiosa, entre outros assuntos, que podem render ótimas discussões (saudáveis) que busquem melhorar isso. Mas, um tipo de discurso que me aborrece bastante e que eu gostaria de falar com vocês hoje é sobre como as pessoas falam da moda como algo descartável. E sim, isso acontece com muita frequência exatamente por ser algo totalmente enraizado na cabeça das pessoas, que desde sempre preferiram ver a moda como algo fútil e sem importância. 
Ei, olha bem para a tua roupa, essa que você está vestindo agora (pode até ser um pijama): muitas pessoas trabalharam para criá-la, produzi-la e costurá-la. Muitas pessoas passaram um bom tempo pesquisando o porquê usar esse tipo de tecido, combinado com essa cor, arrematado com todos esses detalhes. E não, não é a toa que milhares de estudantes passam quatro anos na faculdade aprendendo e pesquisando sobre esse universo tão rico.
Vamos viajar agora… Ao invés de reduzirmos a moda ao vestido de R$19,99 que você comprou numa liquidação de uma loja de departamento, que tal nos atentarmos aos fatos? Afinal, eles nos dizem muito. Na década de 1920, Gabrielle Bonheur Chanel desafiou uma série de comportamentos repressivos da época ao questionar o porquê das mulheres não poderem usar calças e cortar o cabelo na altura dos ombros. Em 1947, a coleção da Dior, que foi chamada de “New Look”, devolveu às mulheres todo o glamour providenciado pelo volume nas saias e nas cinturas marcadas que fora tirado delas durante a Segunda Guerra Mundial. Já na década de 1960, enquanto os Beatles estouravam nas rádios, Pierre Cardin estourava na moda, revolucionando geral e criando a minissaia – sim, aquela que você adora usar nos finais de semana! Caminhando um pouco mais, em 1970, Yves Saint Laurent ousou: roubou a supremacia do luxo masculino e a entregou de mão beijada para as mulheres – o smoking. A partir dai, o sexo e a moda passaram a se conhecer bem mais de perto.

Depois de viajarem muito rapidamente comigo pelo último século da história da moda, nos atentando a coleções e atitudes ousadas que trouxeram às mulheres novas formas de expressão na sociedade, podemos concluir algo juntas: a moda não é o que dizem que ela é e também não se reduz a liquidações e tendências. Na verdade, ela é, e sempre foi, uma forma de expressão e liberdade. Se observarmos, a moda é um dos poucos instrumentos de poder que a sociedade patriarcal, mesmo que sem querer, cedeu a nós, mulheres, como uma forma de lutarmos e gritarmos, por meio das nossas roupas, quem somos e o que buscamos. 

Você vai continuar dizendo que a moda é fútil demais para o seu intelecto? Muitas vezes, você se veste de determinada maneira porque, indiretamente, está sendo influenciado pelo significado de uma roupa na moda naquele momento, mas prefere julgá-la como desnecessária ou inútil. Além disso, ao dizer que a moda é fútil, sem perceber, você está dizendo que todos somos fúteis, já que a moda é baseada em nós, seres humanos;é baseada no nosso comportamento e nos nossos gostos atuais – que sabemos, mudam rapidamente. Percebe como o discurso está enraizado?
Então, se joga, gente! Pois quando vocês saem de casa, carregam nas roupas de vocês muito do que são e ninguém pode proibi-los de vestir o que vocês quiserem – e aí é que está a mágica de tudo, poder ser quem eu quero, da forma que eu quero e quando eu quero. A moda me permite isso, todos os dias, enquanto muitos tentam me calar. Ela não é fútil, ela é libertadora. 

Faça moda, não faça guerra. 
Beijos, beijos
Ju
  • Muito bom!!

  • Louise Favaro

    Juuu! Amei o texto. Parabéns! bjs

  • Anônimo

    Perfeito!!