Trechos: conheça a Liz

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Sou uma jornalista brasileira morando há milhares de quilômetros de minha família. A propósito, me chamo Liz Medeiros, tenho 30 anos, não tenho filhos e sou casada com Eddie, um lindo inglês que me conquistou há 4 anos, em um café na Oxford Street, próximo ao meu escritório, uma revista de moda faminina chamada Fash.

Esta é a história de como eu acabei com a possibilidade de ter uma vida estável, um casamento perfeito e com a possibilidade de viver infeliz por muitos e muitos anos da minha vida. Merda. Pensando assim, eu sou uma verdadeira idiota ingrata e sem juízo. Passei a vida toda sonhando com essa vida e, depois de conquistá-la, larguei tudo para trás.

A verdade é que, quando percebi, estava trancada no banheiro da minha casa londrina dos sonhos, chorando, enrolada em meu roupão vermelho e felpudo que havia me acompanhado em diversas manhãs maravilhosas ao lado de meu marido. Estava morando em Londres há quase 5 anos, desde 2012, e achava que lá seria o meu destino para sempre. Mas, para continuar minha história, preciso retornar um pouco à Liz de 6 anos atrás, em São Paulo, em outro relacionamento, em outra encrenca.

***

Eu e o Matheus, meu ex-namorado, estávamos indo bem, até eu descobrir que eu não era feliz ao lado dele. E foi completamente sem querer que me deparei com essa verdade. Estávamos no bar que costumávamos ir sempre com nossos amigos ou sozinhos. O local tinha um estilo difícil de definir, porque não era nem brasileiro, nem gringo. Mas lembrava, vagamente, os pubs que eu havia conhecido na Inglaterra alguns anos antes, durante meu primeiro intercâmbio.

O lugar era escuro, com um balcão bem largo, que separava os bartenders do público. Morávamos em São Paulo e o bar era frequentado por pessoas muito bem arrumadas. Eu tomava um Cabernet Sauvignon. Ele preferia cerveja. Éramos tão previsíveis, quanto o trânsito que formava na marginal todos os dias na selva de pedra. O Matheus era alto, tinha 1,90 de altura, cabelos castanhos claros, olhos tão escuros quanto os meus. Sua pele era quase bronzeada, mas sua rotina de escritório não permitia que chamássemos isso de bronze. Eu era completamente normal. Cabelos na altura do ombro, 1,62m de altura, olhos de jaboticaba e pele completamente pálida, que combinavam com o loiro avermelhado do meu cabelo.

Estava tudo perfeito até o fim da primeira taça de vinho. Quando levantei os olhos e o encarei, todo o sangue que circulava em meu rosto se esvaiu. Algo havia mudado e eu sabia exatamente o que era. Eu não amava ele. Nosso relacionamento já não passava de uma boa e agradável conveniência que vinhamos tentando segurar em nossos braços há bons meses, mas eu não queria admitir. Falhar, para minha própria consciência, era torturante.

Deixei a taça em cima do balcão, disse que ia ao banheiro e saí de onde estávamos. Tentei molhar o rosto para ver se a tontura passava, mas tudo o que eu conseguia sentir era enjoo e a sensação cortante de medo e de que eu estava encrencada. Odiava terminar relacionamento. Começar era ótimo, sempre divertido e tempo de descobrir coisas novas. Terminar era tão desafiador quanto correr no parque era para mim. Voltei ao balcão e Matheus também estava com uma expressão tensa. Acho que, a partir dali, nós já sabíamos quais seriam os próximos passos, pois era como se todo o sentimento de tédio que vinha se passando entre nós tivesse sido descoberto no fundo daquela taça de vinho. É como se nosso relacionamento estivesse debaixo de algum móvel do nosso apartamento, no qual vivíamos há dois anos, tentando se esconder, fazendo silêncio para não ser descoberto. Até que eu o encontrei e tive que encarar.

Na época, eu trabalhava na redação de uma revista de moda. Gostava muito do trabalho, apesar a rotina exaustiva. Era legal pegar o produto final em minhas mãos e sentir o cheiro das páginas novas, recém impressas. Não havia muito glamour em geral. Éramos uma equipe mista, pequena, que se descabelava nos últimos dias de entrega do material, antes de enviar para a gráfica, mas nos dávamos particularmente bem.

Eu havia me formado em uma universidade particular em São Paulo mesmo há alguns anos e não tinha feito, ainda, nenhuma especialização em minha área. A única ligação que eu tinha com os estudos era a aula de inglês, que eu cursava desde que me entendia por gente. Me recusava a deixar de treinar. Meu inglês era bom, mas com o passar dos anos havia ficado melhor ainda. Acho que foi isso, e o meu profundo e secreto desejo de morar fora, que me fez dizer sim para a ligação do RH da empresa que era dona dessa revista e de muitas outras ao redor do mundo.

-Oi, Liz. Você embarca daqui 20 dias. Chegando em Londres, pode vir até o nosso escritório para assinar todos os papeis.

Seria uma grande aventura e eu mal podia esperar para desembarcar em Heatrow, um dos principais aeroportos de Londres, minha mais nova cidade.