Toda luz que não podemos ver, de Anthony Doerr

Tempo de leitura: 5 minutos

Toda luz que não podemos ver, de Anthony Doerr, foi minha última leitura e é o foco do post de hoje. Podemos chamar isso aqui de resenha? Não. Podemos chamar esse texto de crítica literária? Talvez. Podemos considerar que eu fiquei muito nervosa com essa leitura? Sim. E é neste ponto que eu queria parar agora. Levei basicamente um mês, no total, para finalizar este livro. Comprei com a intenção de presentear uma professora minha da faculdade. No entanto, ela não respondeu minhas mensagens, não pudemos nos encontrar, pois ela estava cheia de compromissos, e acabei pegando o livro para mim.
Quando comecei a ler, a história realmente me chamou a atenção. Basicamente, é isso:

Marie-Laure é uma garota de seis anos, em 1934, cega, mora com o pai Daniel LeBlanc, em Paris. Werner Pfennig é um garoto de sete anos, que mora em Zollverein, na Alemanha, com sua irmã Jutta, no orfanato Casa das Crianças. Todos os personagens estão sendo afetados em função da Segunda Guerra Mundial.
A garotinha cega e seu pai tem que sair de Paris para fugir da invasão dos alemães e para proteger uma pedra preciosa que os alemães querem tomar posse e que o Museu (onde trabalha o pai de Marie) pediu para ele guardar. Assim eles começam uma jornada e chegam até Saint-Malo, uma cidade francesa à beira mar que possui uma muralha de proteção, onde se passa grande parte da história.
Werner e Jutta gostam de ouvir transmissões de rádio e o menino é muito bom em consertar aparelhos deste tipo. Até que um alemão que mora em sua cidade o descobre e o leva para estudar em uma escola que recruta e treina garotos, para formar futuros soldados e componentes do exército alemão.
A história dos dois se cruza ao longo do livro e é aí que está o ponto alto da história.

Nas primeiras 100 páginas (ou mais), a leitura fluiu e eu estava realmente bastante empolgada com o andar da carruagem. Até que percebi o tanto que esse livro é fragmentado. Ele é dividido em 13 partes. Cada uma delas é uma data. E dentro de cada uma dessas partes há vários capítulos. Esses capítulos variam e contam, cada hora, a história de um dos personagens. Foi aí que encontrei a dificuldade dessa leitura. É difícil, na minha opinião, ler um livro que não seja linear, uma história contínua. De confusa e complicada, já me basta a minha própria vida! Só que é nessa característica que, sei bem, está a riqueza e o valor de Toda luz que não podemos ver.
Sua fragmentação irrita e faz a gente ter que voltar várias vezes para se certificar da data ou de alguns dados que podem ter passado batido durante a leitura. Por outro lado, é fascinante ver e comprovar o quebra-cabeça que o autor consegue montar e nos fazer (apesar de tudo) insistir na leitura até a última página.
Esse livro me tirou do sério. Eu ficava brava de não conseguir terminar (são 526 páginas!). Mas, ao final, cheguei à última página e vi como é maravilhosa e delicada a história de Marie-Laure e Werner e outros personagens que ajudam a compor esse enredo. Você viaja por um mundo de horrores com uma leveza de crianças que não acreditam em possíveis benefícios da guerra. É uma escrita sensível, cheia de subjetividades.
Não sei dizer se indicaria ou não essa leitura, mas é um belo desafio para si mesmo. Colocar a paciência, a persistência, a curiosidade para trabalhar nunca é demais. Pensando bem… Acho que a tentativa é muito válida!

Selecionei alguns trechos do livro:

“Abram os olhos”, conclui o homem, “e vejam o máximo que puderem antes que eles se fechem para sempre”, e então entra um piano, toca uma música solitária que soa a Werner como um barco dourado viajando por um rio escuro, uma progressão de harmonias que transfigura Zollverein: as casa transformadas em brumas; as minas, preenchidas; as grandes chaminés, demolidas; um mar ancestral transbordando nas ruas, e o ar fluindo com possibilidades. (página 56)

Werner gosta de se recolher no seu sótão e imaginar as ondas de rádio como cordas de harpa quilométricas vergando e vibrando sobre Zollverein, voando e atravessando florestas, cidades, paredes. À meia-noite, ele e Jutta estão espreitando a ionosfera, à procura daquela voz loquaz, penetrante. Quando a encontram, Werner é lançado para uma existência diferente, um lugar secreto onde grandes descobertas são possíveis, onde um órfão de uma pequena cidade mineradora pode solucionar algum mistério vital oculto no mundo físico. (página 60)

Ela caminha. Aqui há pedrinhas redondas e frias por baixo de seus pés. Ali, algas quebradiças. Acolá, algo mais macio: areia molhada e lisa. Ela se curva e abre os dedos. É como seda fria. Seda fria, suntuosa sobre a qual o mar deixou oferendas: pedrinhas, conchas, cracas. Pequeninos pedaços de destroços. (página 236)

Após ela ter voltado a dormir, após Etienne ter apagado a vela, ele se ajoelha por um longo tempo ao lado da cama. A figura escaveirada da Morte cavalga nas ruas lá embaixo, parando sua montaria de vez em quando para perscrutar para dentro das janelas. Chifres de fogo na cabeça e fumada escoando das narinas e, na mãe esquelética, uma lista recém-preenchida de endereços. (página 337)

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